Assembleia Municipal de Lisboa
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1755 - 2015
Como os lisboetas vão aprender com os japoneses a lidar com terramotos
01-11-2015 Inês Banha, DN
Lisboa resiliente

260 anos depois daquela que foi a pior catástrofe natural vivida em Lisboa, a estratégia está definida: a partir do próximo ano, a Câmara Municipal de Lisboa vai apostar em mostrar a crianças, jovens e idosos como actuar em caso de sismo para tomar mais eficaz a reacção da capital, no futuro, a um terramoto. Para já, há uma exposição a visitar.

A aposta, que parte do princípio de que serão estas faixas etárias a transmitir mais facilmente a mensagem aos restantes adultos residentes na cidade, surge depois de a autarquia ter aprofundado os contactos com o Hyogo Research Institute, uma unidade de investigação japonesa dedicada ao estudo de questões reveladas pelo sismo que em 1995 abalou a quinta maior cidade nipónica, Kobe, matando mais de seis mil pessoas.

Atingido por cerca de 1500 tremores de terra por ano, aquele país é considerado uma referência ao nível da prevenção de catástrofes naturais e irá agora ajudar Lisboa - que ontem assinalou o 260° aniversário do terramoto de 1755, que atingiu 8,5 na escala de Richter e que devastou a cidade - a preparar-se para fazer face a um sismo de larga escala, tido como certo num futuro mais ou menos próximo.

Hoje de manhã, o município e o Hyogo Research Institute celebram um protocolo de cooperação, numa cerimónia integrada na conferência internacional O Terramoto de 1755 - Lisboa Resiliente, que decorre entre as 09.00 e as 18.30 na sede do Banco de Portugal. O evento conta com a presença de Makoto Iokibe, presidente daquele instituto e da Universidade de Kumamoto. Ontem, foi inaugurada a Exposição “Quando Lisboa Treme” sobre o tema, no Museu de Lisboa - Pavilhão Preto (ex-Museu da Cidade, no Campo Grande), aberta ao público até 1 de Março.

"O balanço é bastante positivo", avalia ao DN o vereador da Protecção CM, Carlos Manuel Castro, congratulando-se com o facto de toda a programação anunciada em Janeiro ter sido cumprida e de, há duas semanas, o Royal Instítute of British Architects ter mostrado interesse em receber uma mostra sobre o terramoto de 1755, o que acontecerá em Janeiro. Acções de informação e sensibilização, workshops e até o Mundial de Trauma e Salvamento, foram eventos que marcaram a iniciativa que hoje terá o ponto alto. Ao todo, serão três os temas tratados na conferência internacional: a actuação em cenário de catástrofe, a segurança e resposta do edificado e a comunicação do risco sísmico em zonas sensíveis. É no âmbito do primeiro painel, com início às 11.15, que Makoto Iokibe, também presidente da Academia de Defesa Nacional do lapão, falará sobre "gestão em cenário de catástrofe - os grandes terramotos de Hanshin-Awaji (Kobe, 1995) e Japão Oriental (Tohoku, 2011)". A sua presença é o resultado de um aprofundamento da relação entre o município de Lisboa e o Hyogo Research Institute, iniciada em 2014, e que levou à publicação no Japão de um relatório do trabalho feito no ano passado na capital portuguesa no âmbito de um workshop sobre "O Terramoto de Lisboa de 1755 - Contributos para o desenvolvimento de cidades mais resilientes".

Para já, Carlos Manuel Castro considera que os contactos têm mostrado que, a nível técnico, Lisboa "não está assim tão atrasada". Bem diferente é o cenário quando se fala da consciencialização de quem vive na cidade para o fenómeno sísmico - uma área que, por isso, será uma "aposta forte" no próximo ano. De acordo com o autarca, as acções de sensibilização destinar-se-ão sobretudo a crianças, jovens e idosos, na esperança de que estes "contagiem" depois os adultos. Há quase três anos, um estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) concluiu que um terramoto em Portugal semelhante ao que aconteceu há 260 anos, dado como certo, poderá matar entre 17 mil e 27 mil pessoas, sobretudo na Grande Lisboa, Vale do Tejo, Costa Alentejana e Algarve.