Assembleia Municipal de Lisboa
foto Enric Vives-Rubio
foto Enric Vives-Rubio
debater lisboa | Monsanto
Um parque florestal vivido e não invadido
01-04-2016 AML com Lusa e Público
Monsanto não é um banco de terrenos

Com inicio ontem, 31 de Março, e a decorrer em duas sessões da Assembleia Municipal de Lisboa, o Debate Temático sobre o futuro de Monsanto contou com a presença de vários convidados além do público que veio apresentar ideias para este parque florestal, como não existe outro na península ibérica e poucos há na Europa.

O debate proposto pela bancada do PEV na assembleia da cidade abriu com José Sá Fernandes, vereador com o pelouro dos Espaços Verdes, a dar conta dos vários projectos em curso para o parque florestal de Monsanto, entre os quais as intervenções na requalificação dos equipamentos ali presentes, a devolução dos espaços ocupados pelo antigo Aquaparque e pelo extinto Campo de Tiro à população - convertendo-os em áreas de lazer - e a tomada de medidas para o abrandamento da velocidade do tráfego.

O vereador terminou a sua intervenção anunciando a recente certificação internacional do Parque Florestal de Monsanto, por boas práticas de cuidados florestais.

João Pinho, presidente do ICN - Instituto de Conservação da Natureza, foi o segundo orador da sessão - aberta à intervenção de convidados e público - procedendo à caracterização da floresta e da sua especificidade, relatando a sua história e rematando que “não existe outro Monsanto na península ibérica e são poucos os que existem na Europa”.

Estava assim estabelecido o mote, sublinhar a unicidade e valor daquela zona verde da cidade de Lisboa, que perdurou ao longo deste debate temático com perto de 60 pessoas presentes, entre deputados, representantes de associações e frequentadores desta zona verde com quase mil hectares.

A Plataforma por Monsanto interveio seguidamente ainda como parte do 1º painel agendado, com o seu representante a aquecer o debate.
Mostrando-se crítico da actuação do executivo camarário ao longo do tempo de vida desta associação - que há largos anos se bate pela defesa de Monsanto - Artur Lourenço admitiu que é possível observar progressos no parque florestal mas, considerou no entanto, são também muitos os problemas aí existentes as ameaças que sobre esta área recaem.

Entre os aspectos negativos referiu o "abate de árvores injustificado para favorecer objectivos privados", o excesso de tráfego automóvel no parque, a permissão dada à realização de "grandes eventos" como a Semana Académica e a existência de "problemas urgentes a resolver" ao nível da manutenção e da vigilância.

"Os principais vigilantes do parque são hoje os seus utilizadores", afirmou este cidadão, denunciando que "nalgumas zonas" se assiste a "um regresso da prostituição" e a "um aumento dos furtos".

Uma das intervenções do painel seguinte coube ao comandante da Polícia Florestal, que procurou afastar a ideia de que há falta de vigilância em Monsanto, explicando que ela é feita pela força que representa (em automóvel, a cavalo e através de câmaras de videovigilância) e também pela Polícia Municipal de Lisboa. "Fazemos o possível dentro do efectivo que temos", concluiu o subcomissário José Paulo Santos.

Quem também teve direito a intervir neste debate foram os presidentes das juntas de freguesia na área de Monsanto, vários dos quais sustentaram a necessidade de se melhorar os acessos ao parque.

Um pedido que deixou preocupada a provedora dos Animais, Inês Sousa Real, levando-a a sublinhar que "o aumento das acessibilidades tem de ser ponderado" por forma a garantir que não se põe em causa a biodiversidade. A provedora dos animais aconselhou ainda o município a promover a presença destes seres em Monsanto, instalando para eles "comedouros e bebedouros públicos".

Em sentido contrário pronunciou-se um dos cidadãos que se inscreveram para falar neste debate. "Apelo às pessoas para que não cedam a fundamentalismos. O abate de uma árvore hoje pode dar lugar a algo muito melhor no futuro", afirmou, numa declaração que não foi bem recebida por parte do público. Lembrando que Lisboa "não tem um grande parque urbano", ao contrário do que sucede noutras capitais europeias, Nuno Mendonça Raimundo sustentou que esse pode ser o papel de Monsanto.

Para este cidadão, o parque florestal está hoje "totalmente desligado da cidade" e apresenta no seu interior vários "equipamentos espalhados, sem qualquer ligação". "Monsanto não pode ser vivido pelas pessoas, se não tiver condições para tal", defendeu a esse respeito Nuno Mendonça Ribeiro, apontando a melhoria dos acessos como uma das soluções a adoptar. A outra, seria a de se deslocalizar para o parque florestal o Jardim Zoológico. "Péssima ideia", comentou Sá Fernandes à Lusa em declarações à saída, "as imensas construções do zoo não cabem" em Monsanto.

Ana Muller, da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, usou da palavra ainda na parte do debate reservado à intervenção do público, no sentido de pedir uma "adequada gestão florestal e estratégica do parque".

Deputados querem ter a palavra

Foi o deputado do Pessoas-Animais-Natureza quem apontou, já na altura reservada à intervenção dos deputados municipais, a existência de "uma esquizofrenia latente" entre a ideia da "floresta preservada a 100%" e a do "parque urbano". "É uma dicotomia que tem de ser de alguma forma integrada dentro de todos nós", considerou Miguel Santos, defendendo que "tem de haver bom senso". Algo que, advogou, passa por permitir a "fruição" de Monsanto pelas pessoas, sem que tal implique reduções da "mancha verde" do parque florestal ou da sua biodiversidade.

"Queremos um parque vivido e não invadido", afirmou por sua vez o deputado centrista Diogo Moura, que com esta frase resumiu aquela que foi a mensagem deixada por vários dos oradores que o antecederam.
Nesse sentido, o deputado manifestou-se contra a realização em Monsanto de "eventos de grande dimensão", que em seu entender contribuem para a "degradação" do espaço, e apelou a que "não se caia na tentação" de transformar esta área de Lisboa num "parque urbano".

Uma das principais críticas registadas nesta parte do debate foi a concessão de espaços a privados. "Como Monsanto não é um banco de terrenos, não pode continuar a ser retalhado e vendido", sublinhou a deputada Cláudia Madeira do PEV.

Porém, Sá Fernandes refutou estas acusações, garantindo no fim do debate à Lusa que "todos os espaços que foram concessionados eram inacessíveis ao público". Um deles foi a Quinta da Pimenteira, "um viveiro da Câmara onde nunca ninguém foi e que está em ruínas", apontou. Neste local vai surgir um hostel com 88 camas, cujas obras começam "daqui a um mês" devendo durar um ano.
No âmbito do pedido da melhoria das acessibilidades, Sá Fernandes adiantou que tenciona ter, em 2017, dois autocarros ecológicos a percorrer "todos os pontos interessantes" do parque. O objectivo é que este eco-bus esteja "nas entradas do parque para levar as pessoas e ter ali um horário de 15 em 15 minutos", sustentou.

Sobre a critica à realização de eventos nesta mata, vincou que "o único evento que se faz em Monsanto é a Semana Académica de Lisboa", numa "encosta que não tem coberto vegetal". "Neste local vai ser feita uma bacia de retenção, ao abrigo do Plano Geral de Drenagem de Lisboa", acrescentou o vereador da Estrutura Verde, pelo que "se calhar inviabilizará" a manutenção do evento ali.

Esta foi a primeira das duas sessões do Debate Temático proposto pelo PEV, com a próxima sessão em data e local ainda definir.