Assembleia Municipal de Lisboa
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3ª e 8ª CP AML
Risco sísmico em Lisboa: "É como estar num barril de pólvora"
05-01-2017 João Pedro Pincha, Público

Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico, reuniu com deputados da assembleia municipal e criticou a inércia do poder político face ao tema. "Está-se mais seguro em cima da 25 de Abril ou da Vasco da Gama do que em muitos prédios de Lisboa", afirmou.

"Se tivermos a repetição de 1755, um terço de Lisboa fica em escombros" e ninguém parece verdadeiramente preocupado com isso, lamenta Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico que há décadas estuda sismos e como prevenir os seus efeitos. O especialista diz que o assunto só não é encarado de frente por falta de vontade política.

"O problema sísmico não se resolve a nível técnico. Isto é, como muitos outros problemas do país, um problema político", disse ontem Mário Lopes aos deputados das comissões de Urbanismo e Mobilidade da Assembleia Municipal de Lisboa.

"Nós estamos em cima do problema.
É como estar em cima de um barril de pólvora e a mecha estar a arder", afirmou o especialista, que encontra muitas semelhanças entre a capital portuguesa e Amatrice, a cidade italiana, abalada várias vezes entre Agosto e Dezembro do ano passado.
"Não vai ficar uma única construção de pé", e isso deve-se sobretudo a reabilitação urbana mal feita.

"O que se faz é um peeling aos edifícios e o resultado é este", disse o docente universitário, enquanto mostrava aos deputados fotografias de Amatrice destruída.
"É uma reabilitação como a que nós fazemos aqui em Lisboa", atirou.

Mário Lopes deu o exemplo de Nórcia, uma cidade a cerca de 60 quilómetros de Amatrice, também abalada por terramotos em 2016. O investigador explicou que, nos últimos 40 anos, quase todas as infraestruturas de Nórcia tiveram obras de reforço sísmico, o que contribuiu para que as consequências tenham sido muito menos graves ali.

Em Lisboa, lamentou, nem as construções novas nem as reabilitações têm em conta o risco de terramotos. "A Baixa é um marco da história da humanidade que nós próprios temos andado a destruir", disse, referindo-se à remoção das chamadas "gaiolas pombalinas" e ao aumento do número de pisos sem o reforço das bases dos edifícios. "Isto é a receita para o desastre."

Mário Lopes, vice-presidente do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção do Técnico e, durante muitos anos, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), já muitas vezes discutiu estes temas com o poder político - mas até agora sem grande sucesso. "Isto não é um conjunto de aldrabões que inventaram aqui umas patranhas para ganhar algum dinheiro à custa da reabilitação urbana, isto é um problema de todos os portugueses", disse.

Recordando uma intervenção do professor universitário no Parlamento, há uns anos, que a deixou "aterrorizada", a deputada municipal do PSD Rosa Carvalho da Silva perguntou a Mário Lopes se as duas pontes de Lisboa também corriam risco de colapso em caso de sismo.

A resposta do especialista gerou burburinho: "Está-se mais seguro em cima da 25 de Abril ou da Vasco da Gama do que em muitos prédios de Lisboa."

O problema é tanto de legislação - que não estabelece regras claras para reabilitações - como de fiscalização das obras, disse o docente. Os deputados municipais não fizeram comentários ou perguntas sobre esse tópico, mas Mário Lopes insistiu uma vez mais que "é fundamental que o Estado dê o exemplo".

Esta foi a primeira de várias reuniões sobre o risco sísmico de Lisboa promovidas pela Comissão de Urbanismo da assembleia municipal. No fim, os deputados querem publicar um relatório com as conclusões.