Assembleia Municipal de Lisboa
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CML - CAL
A Casa dos Animais sem nome, sem dono e sem raça
20-02-2017 Sílvia Freches, DN

No maior centro de recolha de animais abandonados do país, dezenas de cães e gatos aguardam por um momento de "sorte", que poderá ser hoje, dia do animal de estimação. A Casa dos Animais de Lisboa está situada em pleno Monsanto e tem as portas abertas todos os dias.

Deitada ainda sob o efeito da anestesia, Nina era o centro das atenções dos veterinários, tratadores e funcionários do maior centro de recolha de animais abandonados e errantes do país. Tem 13 anos e naquele dia, o primeiro da semana passada, foi-lhe diagnosticado um tumor no rim, em estado avançado.

Nina, uma rafeira de grande porte - ali ser raça pura é algo raro - chegou à Casa dos Animais de Lisboa ainda cachorro, encontrado por polícias da esquadra da Rua da Boavista. Nunca foi adotada e tornou-se num dos sete cães residentes, quase todos de idade avançada e que agora andam soltos pelas instalações. Nina não reagia ao barulho ensurdecedor provocado por quase duas centenas de cães, hospedados nas 45 celas do canil e nos cinco parques de recreio, nem às visitas de quem parecia fazer as despedidas, conscientes de que em breve deverá ser eutanasiada. Uma decisão que Marta Videira, diretora clínica, possivelmente, irá tomar quando a doença de Nina o obrigar.

O abate, ou melhor a eutanásia, dos animais atualmente "só acontece quando o grau de dor e sofrimento o justificar", explica a médica. É assim desde 2013, quando de canil de abate passou a ser Casa dos Animais de Lisboa (CAL). Os cães e gatos abandonados deixaram de ter prazo de vida para ali estarem, quando não são reclamados ou adotados crescem e envelhecem por lá. E se dúvidas houvesse, os números comprovam essa realidade. Por exemplo, em 2012, dos 1884 animais que deram entrada na Casa 464 foram abatidos. Em 2014, depois da mudança de estatuto e funcionamento, dos 1552 que entraram em "apenas" 36 foi praticada a eutanásia. Mas não é de morte decidida pelo veterinário - é a única profissão em que a decisão da eutanásia cabe ao médico - que se faz história na reportagem neste centro que recolhe e recebe de animais abandonados ou de pessoas que, simplesmente, não os podem ter. E há muitos casos assim.

É de tratamentos, vacinas, cirurgias, consultas de acompanhamento e, sobretudo, de adoção de que se fala na Casa do Animal de Lisboa, situada em pleno Monsanto, aberto 24 horas por dia. Um espaço amplo no meio do nada, sem luxos, casotas coloridas, coleiras distintas ou brinquedos barulhentos. Mas onde todos os animais são vacinados, esterilizados, desparasitados e diariamente observados - no caso dos cães também levados a passear. Um espaço que vive sem donativos ou campanhas e custa à Câmara de Lisboa cerca de 1 milhão e 200 mil euros por ano. O encargo maior, 900 mil euros, é com o pessoal (perto de 30 funcionários). Para a alimentação dos animais, que consomem por dia uns 130 kg de ração, vão 51 mil euros. Fatia considerável do orçamento, 42 mil euros é aplicado em produtos químicos e farmacêuticos (tratamentos de animais, profilaxia da raiva, testes e vacinas).

Os hóspedes contam-se às centenas - 190 cães e 60 gatos para adotar, um porco preto e um pónei, mais uma colónia de cerca de 70 gatos silvestres que estão numa zona exterior semi-vedada. A lotação, em relação aos cães, está praticamente esgotada (capacidade para 200) e se o número máximo for atingido, terá de ser encontrada vaga em outros canis. "Aqui, cada animal é uma história", repete Marta, que trocou uma clínica privada pelo centro de recolha há quatro anos. E o facto de, a maioria - ao contrário de Nina - não ter nome, não significa que os sete veterinários, os 12 tratadores-apanhadores, os quatro encarregados de canil, os cinco administrativos, os cinco motoristas, as duas cozinheiras e os 58 voluntários orientados por uma técnica superior, não tenham um episódio para contar de cada animal. Seja ele do rafeiro cruzado de labrador (o Assis, como consta no chip) que pertencia a um toxicodependente e chegou a CAL em 2013, ou do pónei, sem nome, encontrado há mês e meio, num bairro social da capital "em muito mau estado".

Todos os animais têm uma folha de entrada e as fichas com os seus dados estão informatizados, e servem não só para o normal controlo clínico, mas também para informar os interessados na adoção. A CAL recebe diariamente dezenas de visitas de potenciais donos. E os dias ganham outro alento quando um animal encontra uma nova casa.

No ano passado deram entrada no centro 375 cães e 301 gatos e foram adotados 260 cães e 208 gatos. Na Casa é feita a aplicação da vacina antirrábica e a colocação do chip para os cães dos munícipes, são oferecidas as consultas de acompanhamento dos animais adotados durante as duas semanas seguintes e a esterilização dos que eram demasiado jovens quando de lá saíram.

"No ano passado entraram aqui de uma só vez 142 gatos, que estavam num apartamento de uma senhora, na Almirante Reis, era uma acumuladora de gatos. Depois de queixas dos vizinhos, a polícia pode entrar na casa e deparou-se com um cenário assustador... Desses já só faltam adotar uns 40...", conta Marta Videira enquanto acaricia uma das gatas da Almirante Reis.
Grande, muito grande, a maior do gatil, branca e preta, "sociável e muito calma" à espera do seu dia da sorte.

A médica faz questão se distinguir as situações dos animais que ali chegam. "Nem todos são abandonados ou sofreram maus tratos. Temos situações de donos que deixaram de ter condições para os manter". É o caso de um sem abrigo que tem na CAL três cães desde junho; de um homem que em novembro ficou sem casa e pediu ajuda para as duas cadelas, que todos os dias visita e passeia.

Numa cela de três cães, dois disputavam a atenção de um casal idoso, de Queluz, que foi ao Monsanto procurar um que pudesse ocupar o espaço da caniche Gray, que tinha morrido recentemente. "Que raças tem?", começou por perguntar o homem a Marta Videira, que o informou que, atualmente, quase todos são rafeiros (à excepção de uma meia dúzia de pit bull . "Queria um cão pequeno", diz enquanto exemplifica o tamanho com as mãos, "para aí com uns dois/três kg. É que a minha mulher anda sempre com eles ao colo".

Não havia nenhum com tal tamanho nem peso. Mas houve um, de porte médio, preto e "despenteado" que agradou a Isabel, professora reformada, de 75 anos, que queria "muito substituir Gray". Nesse dia, o casal não adotou nenhum, o que não desmoralizou a médica: "Prefiro assim, que as pessoas vejam bem, tentem criar uma ligação com algum destes animais e ponderem se têm mesmo condições para os ter". "Temos animais que permanecem mais de 4 anos, é uma questão de sorte. O mais antigo entrou cachorro em 2012 com um quadro complicado por alegados maus tratos. É simpático, forte, com uns 20 kg, a adoção não vai ser fácil", diz a diretora clínica, apontando de seguida para um perdigueiro, jovem, que tremia assustado: "É muito meigo e dócil, não percebo porque ainda não foi. Tem bom caráter, dá-se bem com todos, quer com os animais quer com as pessoas. Hoje está muito assustado porque lhe mudámos os companheiros de cela. Eram duas fêmeas, de seis meses, que agora foram para o parque (zona mais ampla).

Também elas têm uma história, foram encontradas num armazém fechado na Ameixoeira, agora estão ótimas". E Marta prossegue: " Aquele branco, ali, está cá há dois anos, o dono foi encontrado morto na habitação..." Episódios de maus-tratos também não faltam e, nestes casos, é habitual que, quem lida com estes animais acabe por criar uma ligação emocional. Foi o que aconteceu com as irmãs Inês e Joana Martinho, de 34 e 38 anos, respetivamente. Voluntárias na CAL acabaram por adotar dois cães. "A Joanina, um pit bull, que entrou no centro com muitos problemas de saúde e Pepa, com grandes feridas na pele, e que necessitava de cuidados especiais", como explicou ao DN Inês, que confessa ter sentido receio de que fossem adotados por pessoas que não os tratassem bem". "Aqui, independentemente do tempo que cá passarem, estes serão sempre os nossos animais", reforça a diretora clínica, antes de voltar a visitar Nina.