Assembleia Municipal de Lisboa
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Bares de Santos, Cais do Sodré e Bica vão mesmo fechar mais cedo
22-10-2014 Inês Banha, DN

Câmara quer limitar os horários dos bares no Cais do Sodré, em Santos e na Bica. Às 02.00 têm mesmo de fechar, com mais uma hora de funcionamento a ser concedida ao fim de semana.

"Já é qualquer coisa, mas não é suficiente." É com cautela que Isabel Sá da Bandeira, residente no Cais do Sodré, reage à informação de que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) vai, à semelhança do que já acontece no vizinho Bairro Alto, obrigar os bares ali localizados a encerrar portas, de domingo a quinta-feira, às 02.00 e, às sextas-feiras, aos sábados e nas vésperas de feriado, às 03.00. A medida, que vai entrar em vigor até ao final deste ano, vai abranger também as zonas de Santos e da Bica e visa restabelecer uma "certaharmonia" entre quem ali se desloca para se divertir durante a noite e quem ali habita. "É uma não solução", contrapõe a associação que representa os comerciantes do Cais do Sodré e que, tal como os moradores, pede um controlo da diversão desregradana via pública, nomeadamente através da criação de restrições ao consumo de álcool.

A decisão foi confirmada ontem ao DN pelo vereador da Higiene Urbana na autarquia, Duarte Cordeiro, menos de uma semana depois de movimentos e associações de moradores do Bairro Alto, de Santos e do Cais do Sodré terem lançado uma petição a apelar a uma reação da "sociedade civil" a uma doença que se instalou um pouco por toda a capital: até ao final deste ano, os bares do Bairro Alto, do Cais do Sodré, da Bica e de Santos passam a encerrar, à exceção dos que têm autorização para um funcionamento prolongado, à mesma hora.

Horários normalizam "A experiência do Bairro Alto diz-nos que a questão dos horários ajuda a uma certa normalização da vida, até porque o facto de o Bairro Alto fechar mais cedo do que fecha o Cais do Sodré ou a Bica faz que exista uma transumância de pessoas que também gera enorme ruído", explica o autarca socialista, numa referência ao facto de, desde 2009, os estabelecimentos semelhantes daquela zona terem o horário que, até ao final do ano, terá de ser adotado pelos seus vizinhos que, atualmente, encerram às 04.00 (ver fotolegenda). "É uma primeira medida que peca, contudo, por tardia", avalia Miguel Velloso, residente em Santos e já habituado acordar pelas 03.00 com o barulho provocado pelos adolescentes e pelos jovens que ali se reúnem.

Um desregramento na via pública que leva o presidente da Associação Cais do Sodré a considerar uma "não solução" a medida a implementar pela CML. Ressalvando não ter conhecimento oficial da decisão, Pedro Vieira sublinha que a definição de uma hora a partir da qual não é "permitido" consumir álcool na rua poderia ser uma alternativa. "Eles frequentadores dos bares às duas ou três da manhã não vão dormir", sustenta Isabel Sá da Bandeira.

Via pública é complicada

Duarte Cordeiro reconhece que o problema "requer outras respostas", mas lembra que, "no que diz respeito ao consumo" na via pública, "ultrapassa a capacidade de intervenção" do município. "Nós não podemos simplesmente evitar ou proibir que as pessoas consumam na rua", sustenta, salientando que a autarquia vai continuar a fiscalizar e a dar atenção à higiene urbana, estando a ser equacionada a instalação de casas de banho públicas.

O autarca acrescenta, ainda, que a autarquia vai continuar a "fazer uma aposta muito grande" para que o Cais do Sodré "sejaumazona relevante da cidade" e que a decisão estava a ser "planeada e estudada há algum tempo".

Garantias que não tranquilizam Fernando Pereira, proprietário do Jamaica e do Tokyo, dois estabelecimentos emblemáticos e cujo futuro, assegura, as novas regras põem em causa. Embora o primeiro beneficie de um prolongamento especial de horário até às 06.00, o segundo passará a ter de encerrar às 02.00 e não às 04.00. A melhor hora deste, onde atuam músicos saídos do Conservatório, é a partir das 03.00, diz, com a voz embargada.

Macário Correia protestou contra jovens a beber na via pública

ÁLCOOL Quando Macário Correia foi secretário de Estado do Ambiente, na década de 1990, a discussão sobre o consumo de álcool no turno, na via pública em Lisboa, ganhou força. Na altura, até era o tabaco que mais preocupava o social-democrata com uma frase a ficar gravada pelos portugueses: "Beijar uma rapariga que fuma é como lamber um cinzeiro." Mais tarde, no Algarve, quando foi autarca em Tavira e em Faro, Macário insurgiu-se e até escreveu ao Ministério da Administração Interna: não se podia permitir jovens a consumir álcool na rua.

Antes, em Lisboa, era o Bairro Alto o foco de preocupação. Hoje, a situação está melhor devido a restrições aplicadas. Não há um número certo, mas serão milhares os jovens que, todos os fins de semana, afluem ao Bairro Alto. A câmara reduziu, em 2009, o horário de fecho dos bares das 04.00 para as 02.00, de domingo a quinta-feira, e para as 03.00 às sextas-feiras, aos sábados e na véspera de feriado. Os anos seguintes ficaram marcados pelo aparecimento das lojas de conveniência, que, ao venderem garrafas de cerveja de um litro por um euro, potenciaram o consumo de álcool na rua. E a autarquia restringiu, em 2011, o funcionamento ao período entre as 08.00 e as 20.00.

Dono do Baliza contente por ganhar 1 hora

BICA O Baliza Bar Café é um dos estabelecimentos deste bairro lisboeta que fecham às 02.00... desde a sua inauguração, em 1999. Bruno Abreu, o dono deste bar, vê com satisfação as novas regras da Câmara Municipal de Lisboa, que lhe vão permitir fechar uma hora mais tarde ao fim de semana. "É uma questão de criar equidade entre o Bairro Alto, a Bica e o Cais do Sodré", explicou ao DN. Para o empresário, estas mudanças não vão provocar muitas alterações na Bica, pois "apenas dois ou três bares têm uma licença especial para fechar mais tarde".

Morador no bairro, Bruno diz que os residentes vão beneficiar com a diminuição do ruído.
Inês Banha
DN