Assembleia Municipal de Lisboa
Fotografia © Júlio Lobo Pimentel/Global Imagens
Fotografia © Júlio Lobo Pimentel/Global Imagens
Pilaretes com croché resistem à chuva e põem Rua dos Anjos no mapa lisboeta
27-11-2014 Inês Banha, DN
Requalificação da Mouraria foi aposta

A ideia partiu de duas lojistas que querem atrair turistas e residentes à zona. Dia 6 há uma feira para inaugurar a instalação.
"Apesar da chuva, a criatividade tem de continuar." Nélia, 49 anos e frequentadora habitual da Rua dos Anjos, em Lisboa, abriga-se sob o andaime de um prédio em obras e com o olhar nos pilaretes do outro lado da estrada. A maioria está coberta de peças de croché, mas vêem-se também asas de anjo de papel vegetal, purpurina, tintas de várias cores e objectos reaproveitados.

"Os da guerrilha do croché foram vestidos", afirma, com uma gargalhada, Josiane lima, uma das duas comerciantes mentoras de uma iniciativa que visa atrair mais pessoas ao troço que liga o Largo do Intendente à Avenida Almirante Reis e que, apesar da requalificação de que foi alvo, não fez desaparecer o estigma consolidado ao longo de décadas. Para já, garante ao DN, o projecto está a dar resultado, ainda que a inauguração oficial seja apenas na próxima quinta-feira, com uma feira aberta a todos.

São cerca de 30 - de um total de 75 - os pilaretes que no dia 16 ganharam novas cores, juntando-se ao exemplar único que Josiane Lima decorara quando abrira a sua loja, a 6 de Outubro. O objectivo era então chamar a atenção para o seu negócio (Retrox) - algo que, com Raquel Fernandes, do restaurante Oh Nesta Mente, decidiu mais tarde expandir a toda a Rua dos Anjos, com o apoio da Junta de Freguesia de Arroios, sediada no vizinho Largo do Intendente.

Ao todo, foram três dezenas - de artistas convidados a alunos de estabelecimento de ensino locais, passando por três moradores na rua que se associaram ao ver a azáfama - as pessoas que participaram no dia para Embelezar a Rua dos Anjos, estando ainda agendado o contributo de uma turma de estudantes de Arquitectura. No final, todos terão uma nova indumentária, assim resistam ao vandalismo.

"Logo no segundo dia tiraram as asas de uns anjos", lamenta Josiane Lima, sem contudo deixar de ressalvar a sua alegria por a maioria das obras continuar intocável, talvez pela sua localização. "Estão mais perto do Largo do Intendente, há ali polícia", defende. Certo é que a intenção de tomar a Rua dos Anjos uma alternativa à Avenida Almirante Reis parece estar a dar resultado. A prová-lo, os dois turistas que em amena cavaqueira conversam no Oh Nesta Mente e que, assegura Raquel Tavares, são um exemplo de como já nem todos fogem da artéria. "Só não vão é até lá acima", desabafa Josiane Lima, salientando o facto de ser perto da Almirante Reis que os pilaretes são ainda negros.

Uma divisão que persistirá pelo menos até que exista um dia de sol e que a comerciante espera não se note já na próxima quinta-feira, quando se realizar a primeira Feira dos Anjos. Com inscrição gratuita, o evento é aberto a todos os moradores da área que, vendedores habituais ou não, desejem montar uma banca com bens de que se queiram desfazer e comida confeccionada especificamente para o evento. O seu sonho é que seja possível mostrar a diversidade gastronómica de um bairro considerado o mais multicultural de Lisboa e que tem vindo a ser alvo de uma requalificação (ver caixa).

"Vamos ser a rua mais talentosa de Portugal. Cada pino é um talento", sustenta Josiane Lima, sem abandonar, numa tarde de chuva intensa na capital, o conforto da sua loja. Lá fora, quem passa tenta não ficar encharcado, mas são poucos os que ignoram totalmente os pilaretes personalizados que não deixam de resistir à força da água que cai. A intenção é que se mantenham por pelo menos três meses, com renovações ocasionais. Nélia gostava de ver a mesma "criatividade" noutras ruas.

INTERVENÇÃO

Requalificação da Mouraria foi aposta
Quando em Abril de 2011 António Costa - à data a cumprir o segundo mandato à frente da Câmara Municipal de Lisboa - mudou o seu gabinete para o Largo do Intendente, o edifício que ocupou era o único reabilitado que ali existia. Hoje, a praça então associada à prostituição e à toxicodependência tem até esplanadas e consta com frequência dos roteiros culturais da capital. Uma dinâmica que se registou também na zona envolvente - a Mouraria -, da qual a Rua dos Anjos faz parte.
Inês Banha//DN