Assembleia Municipal de Lisboa
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27 de Maio ||18h30 || Fórum Lisboa
O Chão que Lisboa Pisa
22-05-2015
Conferência no âmbito do Ano Internacional dos Solos

A assinalar o Ano Internacional dos Solos a AML apresenta uma conferência que reúne o saber de dois autores consagrados e "cúmplices" nesta temática, ambos aposentados.
Dia 27 de Maio, pelas 18h30, juntam-se em conversa o Professor Galopim de Carvalho, geólogo, e o Professor Fernando Catarino, biólogo e ex-director do Jardim Botânico. A moderação está a cargo de Sofia Cordeiro, Presidente da 4ª Comissão Permanente.

  • extracto de artigo de A.M.Galopim de Carvalho, jornal _Público_, 25/05/2007

O chão que Lisboa pisa
(...)Com raras excepções, o habitante de Lisboa não conhece nem a natureza nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive. Que sabe ele da sua história para trás do dia em que Martim Moniz ficou entalado entre as portas do castelo?

Muito pouco. Mas ainda sabe menos o que aqui se passou antes de o primeiro humano ter pisado estas terras. Não sabe que o lioz, ou seja, a pedra calcária usada na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda e na maior parte da cantaria local, nasceu num mar muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias, mesmo no pino do Verão. Nesse mar raso, há uns 95 milhões de anos, populações imensas de moluscos, com conchas mais espessas do que as das ostras e a que se dá o nome de rudistas, cobriram os fundos e, proliferando uns sobre os outros, edificaram, camada sobre camada, os estratos de calcário que podemos ver, por exemplo, na Av. Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres.

Os lisboetas também não sabem que a pedra negra das velhas calçadas é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos. Ignoram que no tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental marcado pela secura do clima, propício a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados na Calçada de Carriche. Não se dão conta de que o mar aqui regressou depois, há cerca de 23 milhões de anos, e que aqui se gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais - os briozoários - à semelhança dos recifes de coral.

Por último, não lhes ocorre que as antigas fábricas de cerâmica só existiram porque esse mar recuou, passando a haver nesta região uma paisagem aplanada, vestibular de um grande rio, povoado por mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes) e grandes crocodilos. Páginas desta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, são visíveis em alguns, raros, afloramentos rochosos nas ruas da capital. Porque escaparam ao camartelo ou porque não foram encobertos pelo betão ou pelo asfalto.(...)