Assembleia Municipal de Lisboa
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Bairros sociais de Lisboa vão ter obras no valor de 25 milhões
Visita ao Horta Nova, um dos 21 bairros a ser reabilitados
01-07-2015 Inês Banha, DN

"Parece que as fachadas foram à praia e agora estão a perder a pele." Assim descreve Alda Oliveira as casas do bairro da Horta Nova, em Carnide, um dos 21 com reabilitação programada. A Câmara de Lisboa já aprovou, falta o sim da Assembleia Municipal.
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Diana, Iara, Iara - "sim, temos o mesmo nome" - têm 15 anos, sempre viveram na Horta Nova, em Lisboa, e não se lembram de alguma vez ter visto as fachadas dos prédios concluídos em 1993 sem estarem a perder tinta. Em breve poderá ser diferente. O bairro municipal localizado em Carnide é uma das 21 urbanizações de habitação social que já neste ano, e até 2017, vão ser alvo de obras de reabilitação.

O programa, aprovado pelo executivo municipal e a aguardar validação da Assembleia Municipal de Lisboa, representa um investimento de 25 milhões de euros. É num misto de alívio e desconfiança que, sentados à porta de um café na Horta Nova, António Garcia e Benjamim Fernandes, de 67 e 59 anos, recebem a notícia de que as coberturas e as empenas (paredes laterais sem aberturas) dos prédios poderão vir a ser reabilitadas. "Estou à espera há quatro anos. Vamos ver...", diz ao DN o mais velho, sem se escusar a descrever as ocasiões em que, em dias e noites de chuva, não parou de pôr panos no chão para impedir que a casa alagasse. "Está tudo cheio de rachas", diz, cansado de promessas por cumprir feitas sobretudo em época eleitoral.

De acordo com informação apresentada na reunião do executivo e já publicada no site do parlamento da cidade, só na Horta Nova o investimento será de 2,5 milhões de euros - 200 mil ainda neste ano, 1,3 milhões no próximo e um milhão em 2017 -, sendo ultrapassado apenas pelo o do Condado (antiga zona J de Chelas), que sofrerá obras de beneficiação no total de 2,6 milhões de euros. Neste caso, além das empenas e das coberturas dos edifícios, também as zonas comuns serão intervencionadas.

Seguem-se, segundo o mesmo documento, os bairros da Alta de Lisboa (2,4 milhões para empenas e coberturas), Padre Cruz (1,7 milhões para empenas e coberturas), 2 de Maio (1,6 milhões para zonas comuns e substituição de janelas), da Flamenga (1,5 milhões para zonas comuns), Eduardo Bairrada (1,3 milhões para empenas, coberturas e zonas comuns) e da Quinta dos Ourives (um milhão para zonas comuns e fecho de escadas).

Outros 13 completam, com requalificações orçadas entre os 200 mil e os 900 mil euros, a lista das 21 urbanizações abrangidas pelo programa, que se traduz numa alteração ao Plano de Atividades e Orçamento 2015 da Gebalis, empresa municipal encarregada de gerir os bairros municipais (ver imagem).

No total, trata-se de um investimento de 25 milhões de euros, distribuídos por três anos - 3,99 milhões no que resta deste, 10,46 no próximo e 10,55 em 2017. O montante poderá ser revisto em baixa. De fora ficam 49 dos 70 bairros sociais que existem na capital. "Estas áreas, lotes, tipos de intervenção e opções de território tiveram por base o diagnóstico feito pelos serviços, o registo das reclamações dos munícipes e a apreciação feita pelas juntas de freguesia", refere, numa declaração por escrito, a vereadora da Habitação e do Desenvolvimento Local.

Paula Marques, eleita pelos Cidadãos por Lisboa na lista socialista, acrescenta que foi ainda tido como critério "a dispersão no território, bem como a preponderância de propriedade pública". "Priorizamos a intervenção em lotes com 100% propriedade municipal, seguindo-se os com maiores percentagem", precisa. A autarca reconhece, de resto, que o programa agora em fase de aprovação "resulta de uma inequívoca constatação da necessidade de intervenção a nível do edificado, entenda-se partes comuns e envolventes, que há muito a Gebalis e a população identificaram como necessária". "Trata-se de cumprir a nossa função como proprietários e senhorios, proporcionando melhores condições de habitabilidade aos inquilinos", frisa.

Alda Oliveira tem 53 anos, vive "desde o início" na Horta Nova e sabe bem do que fala Paula Marques. "Parece que as fachadas foram à praia e agora estão a perder a pele", compara a lisboeta, enquanto um pouco por todo o bairro jovens e crianças em férias não param de andar de bicicleta ou de jogar à bola, indiferentes ao dia quente.

Mário Paulo e os amigos estão mais resguardados, mas é também à natureza que o idoso recorre para descrever o que qualquer pessoa vê. "Parece que as paredes estão a chorar", diz durante uma pausa no jogos de cartas e de dominó que decorrem numa pequena sala.

O momento basta para o grupo referir, com tranquilidade, a água que se infiltra regularmente nas suas casas. E congratular-se, com entusiasmo contido, pelas intervenções prometidas. O programa afectará, na totalidade, 43 mil habitantes.