Assembleia Municipal de Lisboa
Voto 039/01 (PCP) - 112 anos do nascimento de Fernando Lopes-Graça
23-10-2018

Agendado: 23 de Outubro de 2018
Debatido e votado:
Resultado da Votação:
Passou a Deliberação: 447/AML/2018
Publicação em BM Publicação em BM 2º Suplemento ao BM nº. 1291
Retificada a Publicação em BM nº. 1292

Voto de Saudação
112 anos do nascimento de Fernando Lopes-Graça

Saudamos o centésimo décimo segundo aniversário do nascimento de Fernando Lopes-Graça, figura maior da cultura portuguesa, compositor, pedagogo, ensaísta, crítico, pianista, regente de coros, resistente antifascista e militante comunista.

A obra de Fernando Lopes-Graça, enquanto compositor, musicólogo, pianista, maestro, professor, investigador, teórico, crítico de arte, marcou fortemente o século XX. E tal como a sua música, muito justamente apreciada e reconhecida internacionalmente, permanecerá como referência marcante e destacada no nosso País, também o seu exemplo de integridade e coerência revolucionárias permanecerá na memória de muitos como uma referência de todos os dias. Toda a sua obra de artista - cuja notável inspiração e criatividade tem raízes no património que investigou, inventariou e recriou da música popular portuguesa - está indissolúvel e impressivamente ligada à sua visão do mundo e à sua opção política e ideológica: desde as Canções Regionais às Heróicas, a obras como Em Louvor da Paz e Requiem pelas vítimas do fascismo.
Um dos aspectos mais admiráveis e exemplares na personalidade de Fernando Lopes-Graça é certamente a firmeza e a coerência das suas convicções e do seu carácter, dos seus princípios, do conjunto da sua criação intelectual e artística, da sua intervenção cívica e política. Lopes-Graça é um exemplo maior do intelectual livre que, por o ser em todas as circunstâncias, toma como sua a causa da emancipação e da liberdade do seu povo, a causa da luta contra o obscurantismo e a opressão, da luta contra a exploração.
Membro do PCP desde 1948, a sua adesão ao PCP não é mais do que a sequência natural da intervenção de alguém que, desde a juventude assumiu uma corajosa e intransigente opção democrática, antifascista, progressista. À data da sua adesão ao PCP, Fernando Lopes-Graça sofrera já as perseguições políticas, a prisão, o desterro, o exílio. O fascismo retirou-lhe o diploma de professor do ensino particular, vedou-lhe o acesso a cargos públicos - e mesmo quando lhe foi proposto dirigir os Serviços de Música da então Emissora Nacional, não chegou a tomar posse do cargo porque se recusou a assinar a declaração de «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas» que o fascismo exigia aos funcionários públicos. O regime fascista vigiava e perseguia Fernando Lopes-Graça com o mesmo implacável ódio com que perseguia os resistentes clandestinos. Vigiava-lhe as intervenções, os passos, os sítios onde morou, as pessoas que contactava e o contactavam. As dezenas e dezenas de folhas do seu processo nos arquivos da PIDE - com relatórios de informadores que vigiavam o seu dia-a-dia - constituem um testemunho eloquente do temor que suscitava ao fascismo a sua personalidade prestigiada, firme e intransigente.
Toda a vida e toda a acção de Fernando Lopes-Graça são inseparáveis do núcleo fundamental das suas convicções, da sua inteligência e do seu génio criador voltado para o povo e para o futuro. As suas palavras, mesmo quando fala apenas de música ou de cultura são as de um revolucionário, como quando afirma: "uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente, naquilo que ele tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista para o futuro".
Poucos artistas têm, como Lopes-Graça, em cada criação um acto de resistência. Que em Lopes-Graça é também resistência a qualquer submissão, a qualquer facilitação, a qualquer demagogia, a qualquer transigência de linguagem ou de ordem estética. É essa a atitude coerente com o profundo respeito que tem pelo seu povo: o desejo de que se aproprie das obras certamente belas, mas complexas e exigentes que realiza, obras que abram caminho, não obras que sigam trilhos já gastos.
Durante os meses de Outubro e Novembro, Lisboa será palco de um conjunto de iniciativas dedicadas a Fernando Lopes-Graça (1906-1994), co-organizadas pela Associação Lopes-Graça e pela Câmara Municipal de Lisboa; de destacar a Evocação realizada no passado dia 1 de Outubro, no Vozes ao Largo, com o Encontro de Coros dedicado a Lopes-Graça, e amplamente participado. Serão ainda realizadas outras iniciativas, descentralizadas pela cidade de Lisboa, no próximo dia 19 de Outubro, pelas 21 horas, no Teatro Aberto com o Concerto dedicado a Fernando Lopes-Graça com músicos da Orquestra Metropolitana. No dia 26 de Outubro terá lugar uma sessão na Biblioteca Municipal de Marvila, com o título "O Coro da Academia de Música e a prática Coral na segunda metade do Século XX". No dia 13 de Novembro, será realizada uma sessão na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, com o tema "Fernando Lopes Graça, um percurso foto-biográfico".

Reconhecendo a relevância histórica, cultural, evocando e honrando a sua vida, obra e o futuro emancipador que sempre defendeu, e a sua profunda acção na liberdade que ajudou a construir em todos os dias da sua vida de criador e revolucionário, a Assembleia Municipal de Lisboa, reunida no dia 16 de Outubro de 2018, delibera saudar o centésimo décimo segundo aniversário do nascimento de Fernando Lopes Graça.

Lisboa, 10 de Outubro de 2018.

Os Deputados Municipais

Ana Margarida de Carvalho
Fernando Correia
António Modesto Navarro
Fábio Sousa

Documentos
Documento em formato application/pdf Voto 039/01 (PCP)151 Kb
Documento em formato application/pdf 2º Suplemento ao BM nº 1291 Rectificada Publicação em BM nº. 1292351 Kb