Assembleia Municipal de Lisboa
Voto 043/01 (PCP) - Voto de Saudação pelos 20 anos do da atribuição do Nobel a José Saramago
20-11-2018

Agendado: 20 de Novembro de 2018
Debatido e votado: 20 de Novembro
Resultado da Votação: Aprovado por unanimidade e aclamação com aplausos prolongados de pé
Passou a Deliberação: 487/AML/2018
Publicação em BM: 5º Suplemento ao BM Nº 1292

Saudação pelos 20 anos da atribuição do Nobel a José Saramago

( )«que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante»

Estas palavras proferiu-as, em Estocolmo, José Saramago, no seu discurso da cerimónia de entrega do prémio Nobel, há 20 anos, a 10 de Dezembro de 1998. Dois meses depois de pela primeira e única vez o Nobel ter sido atribuído a um escritor de língua portuguesa, a um português, a um lisboeta.
O homem que nos escreveu o mundo, escrevendo-se a si mesmo, semeava a interrogação em seu redor e, ao mesmo tempo, a serenidade; provocava a inquietação e, ao mesmo tempo, o bom senso; fomentava o desassossego e, ao mesmo tempo, a sensatez, detendo-se nas pequenas pendências do quotidiano ou nas grandes questões da humanidade. José Saramago, foi um escritor em alta voz. Mesmo depois de ter sido traduzido em dezenas de línguas, de ter sido mencionado e admirado pelos grandes pensadores internacionais, desde Umberto Eco a Harold Bloom - que lhe viu um talento que o aproximava de Shakespeare, «por conta da sua versatilidade, trafegando com inteligência do drama à comédia» Mesmo depois de ter conquistado o Nobel e de se ter tornado uma voz internacional, de ter tido incontáveis distinções no país e no estrangeiro Nunca se limitou a cultivar o seu quintal. Pelo contrário, do seu quintal fez o mundo, e da sua voz amplificada fez eco para denunciar os atropelos àquilo que considerava mais valioso - a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Jornalista, colunista, tradutor, escritor, José Saramago nascido em 1922, na Azinhaga, foi alvo daquilo a que Eduardo Lourenço chamou uma improbabilidade milagrosa. José Saramago construiu-se. De menino descalço na aldeia, a serralheiro mecânico, funcionário público, empregado de uma companhia de escritórios Marxista convicto, militante do Partido Comunista desde os tempos em que sê-lo implicava correr duros riscos, durante a ditadura Salazarista até ao fim, auto-didacta, livre pensador, político, brilhante orador, presidente desta Assembleia Municipal Veio para Lisboa na primeira infância mas nunca renegou as suas origens muito humildes. Pelo contrário, resgatou-as para a sua obra, as memórias, os avós, uma velha figueira, o rio Tejo - «Deixa-te levar pela criança que foste» (lê-se em epígrafe num dos seus livros)
O seu escritório preferido foi a Biblioteca Municipal do Palácio das Galveias, aí o mais conhecido escritor contemporâneo de língua portuguesa à escala mundial, continuou o seu percurso de auto-construção e de leitor tenaz. Após a sua morte, a 18 de Junho de 2010, tão grande perda para tão pequeno país, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu instalar a Fundação José Saramago na Casa dos Bicos, como «um justo tributo prestado ao grande escritor que tanto prestigiou Portugal, engrandeceu a língua e projectou Lisboa no mundo»
Foi um escritor de excepção, um homem firme. Foi o homem que nos fez crescer, a todos, portugueses, "três centímetros" quando há 20 anos conquistou o Nobel. Foi um homem de esquerda, foi um homem de coragem, foi um comunista, foi uma pessoa, foi um lisboeta. Foi um cidadão que sempre acreditou que o mundo podia ser mudado.
A esta saudação, juntamos o firme desejo de que esta Assembleia encete esforços para que o nome de José Saramago seja dado a um equipamento cultural ou educativo, de forma a homenagear o escritor, nos 20 anos de atribuição do Nobel.

A Deputada Municipal do PCP

- Ana Margarida de Carvalho -

Documentos
Documento em formato application/pdf Voto 043/01 (PCP) 83 Kb
Documento em formato application/pdf 5º Suplemento ao BM nº 1292132 Kb