Assembleia Municipal de Lisboa
Voto 105/04(DM IND Raul Santos) - Saudação sobre o Aniversário do 25 de Abril
28-04-2020

Agendado: 28 de Abril 2020
Debatido e votado: 28 de Abril
Resultado da Votação: Aprovado por maioria com a seguinte votação: Favor: PS/ PCP/ PAN/ PEV/ Deputados(as) Municipais Independentes: António Avelãs, Ana Gaspar, Joana Alegre, José Alberto Franco, Miguel Graça, Patrícia Gonçalves, Paulo Muacho, Raul Santos, Rui Costa e Teresa Craveiro - Contra: MPT - Abstenção: PSD/ CDS-PP/ BE/ PPM/ Deputado Municipal Independente Rodrigo Mello Gonçalves
Passou a Deliberação:95/AML/2020
Publicação em BM:4º Suplemento ao Bm nº. 1378, 16.07.2020

Voto de saudação à liberdade, no 46º aniversário do 25 de Abril

A semana que passou viu mais um aniversário de Abril.

Foi, em termos de calendário, o 46º, mas desta feita bem diferente do habitual, moldado não tanto por homens e mulheres, mas por um vírus de sua graça SARS-CoV-2, graça que reflecte bem o que pode acontecer aos mais idosos e condicionados.

Abril trouxe-nos a possibilidade de entrarmos no clube dos países que desenfreadamente procuram protagonismo económico, explorando até ao absurdo os ecossistemas e assim contribuindo para a potenciação do actual período pós-glaciar de aquecimento global em que vivemos, como se isso fosse uma obrigação e um desígnio a que as sociedades humanas não podem fugir. Nada mais errado.

Isso levou-nos à progressiva destruição do coberto florestal do país e à sua substituição por fileiras de produção industrial de eucalipto, papel, o rastilho ideal para os fogos enquanto fenómenos extremos numa época bem mais seca e que surge mais cedo no tempo. E, mais recentemente, olival intensivo, empobrecendo a biodiversidade de uma região frágil e carente.

A liberdade que ganhámos com Abril não acompanhámos com a sabedoria que podíamos e devíamos ter tido. A sede de voar e gritar bem alto que podemos ser tão bons como os melhores, levou-nos demasiado perto do Sol.

46 anos depois, a liberdade conquistada é um facto, mas condicionada a interesses tantas vezes nebulosos que nos levaram a penhorar áreas estratégicas para a nossa liberdade, como se não houvessem outros caminhos para chegar aos tão almejados "progressos", desenvolvimento, bem-estar, cujas fragilidades a COVID-19 colocou a nu!

Ontem, clamávamos por um desenvolvimento sustentável que é, por definição de desenvolvimento, impossível de atingir, por enfeudado ao crescimento económico.
Hoje, perseguimos mais um mito, o da economia circular, apenas possível no papel, mas que convence muita gente, até políticos que deviam estar mais bem informados. Ou até estarão, mas

Estamos numa sociedade global, partilhamos tudo, até as desgraças anunciadas, mas que sempre o Homem ignorou.

A desflorestação quebra cadeias tróficas microscópicas que contiveram até hoje potenciais zoonoses, anunciando catástrofes que nunca quisemos ver, ignorando o que biólogos e investigadores ambientais dizem há dezenas de anos. A propagação do SARS-CoV-2 é apenas o último exemplo de outros que se seguirão caso não mudemos radicalmente a nossa maneira de estar no mundo. O que dantes era ficção científica, passou a estar do outro lado da porta, impedido de entrar por confinamentos que limitaram a nossa liberdade, a tal liberdade universal que acabou por nos trazer até este ponto.

É, pois, urgente que façamos um novo Abril, desta vez informado pela Natureza, se quisermos gozar a liberdade que é pilar do nosso bem-estar. De outra forma, ganharão os big-brothers que espreitam, 1984 instalar-se-á, e aceitaremos de bom grado esse sacrifício em nome de uma liberdade que já não saberemos reconhecer, num admirável mundo novo.
Podemos mudar o paradigma e Portugal tem condições para o fazer, assim não perca tempo em discussões fúteis e tenha a coragem para dizer bem alto ao resto do mundo "nós não vamos por aí"!

Sem ambiente saudável, não há liberdade.

Três meses de Covid-19 fizeram a poluição atmosférica regredir para níveis dos anos 50. Foi a forma que a Mãe-Natureza encontrou para nos avisar mais uma vez.

Se não a ouvirmos, Abril não cumpriu todos os seus objectivos.

A Assembleia Municipal de Lisboa, reunida a 28 de Abril de 2020, delibera saudar a liberdade que nos permite estarmos hoje aqui reunidos e que nos vai permitir celebrar também o Maio que se aproxima, Maio que desde a longínqua Chicago em 1886 inspirou uma maior justiça social que nos deve continuar a guiar.

Raul Santos

Documentos
Documento em formato application/pdf Voto 105/04(DM IND Raul Santos) nova versão64 Kb
Documento em formato application/pdf 4º Suplemento ao BM 1378, 16.07.2020256 Kb