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Página do Grupo Municipal do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV)
A política editorial desta página é da inteira responsabilidade do Grupo Municipal do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV)
Voto 073/9 (PEV) - Saudação "55 anos da Greve da Mala da Carris em 1968"
06-06-2023

Agendado: 76ª Reunião, 27 de Junho de 2023
Debatido e votado: 76ª Reunião, 27 de Junho de 2023
Resultado da votação: APROVADO com abstenção do CH

Entre os dias um e três de Julho de 1968, curiosamente cerca de um mês antes de Salazar ‘cair da cadeira’, os trabalhadores da Carris protagonizaram uma greve (que eram proibidas pelo regime fascista em Portugal), que terminou com uma vitória que se materializou num aumento generalizado de vinte escudos.´

Antes, a 3 de Junho de 1968, haviam-se concentrado 2 mil trabalhadores em frente ao edifício da administração da Companhia Carris de Ferro de Lisboa, requerendo melhores condições laborais e de vida para as suas famílias, por meio da actualização dos seus salários. À recusa das reivindicações destes trabalhadores, os dias seguintes ficaram marcados pela intensificação dos protestos, desta vez acompanhados da brutal repressão policial a mando do Governo fascista. Primeiro, no dia 19 do mesmo mês ocorre uma nova acção de luta, agora apoiada pela participação da população lisboeta, e a 25 de Junho novas concentrações, ambas acompanhadas, sem surpresa, pela já habitual repressão policial. De seguida, recusando-se a fazer horas extras, os trabalhadores começaram por abandonar eléctricos e autocarros nos mais diversos e aleatórios sítios da cidade, assim que findava a normal jornada diária.

Esperavam, a administração da Companhia e o Governo fascista, que a violência exercida sobre estes trabalhadores os fizesse desistir das suas exigências de renegociação do contrato colectivo de trabalho e da melhoria salarial. Porém, entre cobradores, motoristas e guarda-freios foi-se generalizando a ideia de que, se até ao fim do mês de Junho as suas exigências não fossem cumpridas, a única opção seria a preparação de uma greve.

No dia 1 de Julho de 1968, apesar do cuidado que houve no planeamento, a PIDE estava ao corrente da greve, certamente informada pelos inúmeros ‘bufos’ que abundavam na sociedade da altura, tendo-se os trabalhadores deparado com um forte dispositivo integrado por forças de choque com cães polícia, acrescidos por agentes daquela polícia política.

Perante aquele aparato policial, os organizadores passaram do plano inicial de ocupar a estação, e aí abandonar os veículos de transporte, para um alternativo plano B. Os trabalhadores decidiram então sair com os autocarros, mas ‘esquecendo-se’ da mala dos trocos e mais do que isso, dos bilhetes, o que na altura tinha um impacto decisivo, pois só esporadicamente era apresentado um ‘passe’. Assim, entre esse dia e o dia 3 de Julho, os trabalhadores boicotaram a cobrança de bilhetes nos autocarros e eléctricos.

O Governo, vendo que nem as ameaças nem a repressão até à data tinham surtido qualquer efeito na atenuação da luta dos trabalhadores da Carris, terá impelido a administração da empresa a ceder, obrigando-a a ir ao encontro da principal reivindicação laboral, aumentando os salários em 20 escudos diários (a na altura denominada ‘folha de alface’).
Assim, 55 anos depois da ‘Greve da Mala’, que teve a origem do seu nome nos cobradores de bilhetes que no dia 1 de Julho decidiram deixar as suas malas, onde era guardado o dinheiro da venda de bilhetes, nas estações, cumpre reconhecer a coragem e determinação destes trabalhadores, pela sua consciencialização de que o caminho para a conquista das suas reivindicações teria sempre de passar pela persistência da sua luta.

Neste sentido, a Assembleia Municipal de Lisboa delibera, na sequência da presente proposta do Grupo Municipal do Partido Ecologista Os Verdes:

1 - Saudar a determinação dos trabalhadores da Carris pela realização da ‘Greve da Mala’, ocorrida em 1968.
2 - Saudar todos os trabalhadores da empresa Carris, bem como a sessão evocativa da ‘Greve da Mala, realizada na Estação de Santo Amaro em 1 de Junho de 2023.
Mais delibera ainda:
- Enviar a presente saudação à Carris, ao Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP), à Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (FECTRANS), à Associação Sindical dos Trabalhadores da Carris (ASPTC), à a CML e todos os seus vereadores.

Assembleia Municipal de Lisboa, 6 de Junho de 2023

O Grupo Municipal do Partido Ecologista Os Verdes
Cláudia Madeira
J. L. Sobreda Antunes

Documentos
Documento em formato application/pdf 20230606 Saudação 55 anos da Greve da Mala da Carris em 1968256 Kb